Crônica: O meu São João
No Brasil e, principalmente, no Nordeste, o São João é conhecido como uma das maiores festas populares do calendário nacional, mas para mim é uma festa afetiva. Nasci e cresci em Tiquaruçu em Feira de Santana, e, enquanto muitas crianças esperavam pelos chocolates na Páscoa ou pelos presentes no Natal, eu queria o São João, suas bandeirolas coloridas, a fogueira acesa em frente à casa, os balões de mentirinha pendurados no quintal, o amendoim cozido, a canjica, o bolo de aipim, o milho assado e o brilho das chuvinhas de prata, tudo embalado pelas lindas canções de Gonzagão.
Naquela época na roça a festa ainda era bonita. As varandas eram todas enfeitadas, a canjica era feita com o milho colhido daquelas terras e tinha ainda o bolo de laranja de minha tia Julia de zé veneno, que nunca conheci ninguém que fizesse melhor. E a véspera de São João era embalada pelos velhos discos de vinil de Domingos da Caatinga, ou de Der de Ricardo no Socorro, que todos os anos eram sempre os mesmos: Gonzagão, Genival Lacerda, Zenilton, Cremilda e segue uma lista grande na cabeça, que eu já sabia de có de tanto ouvir. E a noite chegava, com o calor da fogueira, com as bombas, traques, chuvinhas, e com alguns amigos com seus rostos pintados, o corpo vestido de caipira, e eu com o inseparável chapéu de palha sempre esquentando a minha cabeça. E ali eu via a noite passar e não queria que ela fosse embora. Esperava o ano inteiro por ela, pelo seu brilho, pela sua alegria, pela família reunida e pelos amigos que chegava da capital.
Ontem, minha prima Jeane ligou, lamentando o fato de eu não estar lá para comer seus bolos ou o amendoim trazido de feira pelo seu esposo Sinho. Mas o tempo infelizmente é outro, pessoas já se foram e as camisas feitas de chita e os chapéus de palha já não cabem em meu corpo ou em minha cabeça, mas em dias como hoje, véspera de São João, daqui de onde estou, volto a ser menino e a querer todas aquelas cores e brilhos do passado. Talvez eu já soubesse, enquanto todos aproveitavam a festa despreocupados que ela passa rápido demais, assim como o tempo, que transforma tudo, do nosso corpo aos nossos sonhos. Dizem que me prendo demais ao passado e concordo, mas tenho minhas lembranças ainda vivas, enquanto como, sentado diante do computador, um bolo de aipim feito por minha filha Priscila ou os amendoins trazidos do bom preço por minha esposa Aline.
Não caibo mais em minhas roupas, mas ainda tenho o meu São João, revivido, todos os anos, mesmo à distância, mesmo tendo tudo efetivamente mudado, mesmo tendo restado muito pouco… Ainda assim tenho o meu São João.

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