Crônica: Quem Conhece o centro de abastecimento de Feira de Santana não Precisa ir à Disney

Falar de Feira e não falar do centro de abastecimento é como ir Vaticano e não ver o Papa. A feira no centro de abastecimento  acontece  todos os dias, de domingo a domingo, mais o gostoso mesmo é as segundas feiras, e é mais do que uma simples aglomeração de vendedores e compradores, para muitos é um evento social onde os moradores, principalmente dos distritos e de algumas cidades vizinhas vão para as compras, vendas ou simplesmente para verem o verdadeiro espetáculo que se repete solenemente.  Chega a impressionar a quantidade e diversidade dos produtos. Pode-se encontrar desde de pescaria a tecidos finos, temperos, frutas, legumes, hortaliças, carnes, toda espécie de artesanato e novidades.

Mas bom mesmo era quando íamos nos  velhos “paus de araras”, era ali que se  transportavam pessoas e mercadorias, basta eu falar deles, que as memórias da infância chegam para me visitar. Basta eu fechar os olhos, enquanto escrevo essa crônica, que posso sentir até mesmo o balançar do  velho caminhão truque que nos levava,  e os cheiros e sabores da feira, que hoje, por conta da vida profissional, raramente visito. Chego até me imaginar um “filho desnaturado”. 

O caminhão de Antonio de Valezia, serviam como uma espécie de “entreposto” para os amigos e compadres dos povoados de tiquaruçu que lá guardavam suas compras, ou os que iam  para se tratarem de alguma doença ou simplesmente para passearem e botarem as conversas em dia. O caminhão dirigido por Julio de Ivo, ficava parado na praça fróes da Mota, e ali se levava e trazia  de tudo, do açúcar ao fumo de corda e a segunda-feira era, como se fosse um dia de festa. Tanto que o Juda deixou em testamento para Antonio: 

“PARA O AMIGO ANTONIO DE VALEZIA, QUE NEGÓCIA FARINHA NA PRAÇA, QUANDO VAI COM O CARRO CHEIO, TUDO ELE ACHA GRAÇA, QUANDO VAI COM O CARRO PURO, SÓ CHAMA PELA DESGRAÇA”. 


Mas existiam também algumas figuras pitorescas, quem não lembra de Raul do ganzá, Pedro Anã, ou o famoso batedor de carteiras “Beiçola”? 
Conta ás más línguas que certa vez o Sr. Lino do bandeira, que já conhecia  a fama de Beiçola, levo dez sacas de farinha para vender no centro de abastecimento, logo após vender a farinha e receber a pacoteira (dinheiro) correu até o pau de arara e lá ficou, até que apareceu um homem alto e forte, que subiu no caminhão e começou a conversar com ele, conversa vai  conversa vem e ele perguntou: Meu velho porque o senhor passou o dia todo em cima desse caminhão? E batendo com a mão no bolso seu Lino respondeu: Meu filho vendir dez sacas de farinha e estou com todo dinheiro aqui, e ai na rua tem um tal de Beiçola que rouba todo mundo, e aquele homem respondeu: Deixa de ser basta meu velho, “Beiçola sou eu”. Fala-se ás más línguas que naquele dia ninguém conseguiu sentar ao lado de seu Lino por causa do mal cheiro.

Dia desses, logo após a morte do grande Ariano Suassuna, via um vídeo onde ele era entrevistado por Jô Soares e contava de um almoço que participou na casa de um amigo rico e, no meio do almoço, a esposa do anfitrião perguntou-lhe se conhecia a Disney. Ao ouvir a negativa do Imortal da Academia Brasileira de Letras, a mulher ficou quase indignada, levando quase como uma ofensa o fato “tão grave” que era não conhecer o tal parque. Ariano percebeu que essa senhora dividia a humanidade em duas partes: Uma que conhecia a Disney e os outros “pobres mortais”.
O interessante é que a Disney estava no título dessa crônica e, praticamente não  escrevi nada a respeito. Fiz isso de propósito, pois depois dessa viagem no tempo, no espaço, entre cores, cheiros e sabores quem se lembrou que a Disney existe?

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